Kevin Weil, que até abril comandava a frente de ciência da OpenAI, apresentou na quinta-feira (22) a Warp Sciences. A startup quer montar laboratórios operados por robôs para sintetizar e testar candidatos a remédio em um volume que equipes humanas não alcançam. Os registros desses experimentos vão servir para treinar modelos de IA próprios da empresa.
A Warp já nasce com caixa. A rodada Série A somou US$ 215 milhões, cerca de R$ 1,08 bilhão, com liderança da Lightspeed e participação de Lux Capital, IVP e Menlo Ventures. Segundo Weil, o aporte põe o valor da empresa em US$ 865 milhões, perto de R$ 4,3 bilhões.
Quem está por trás
Weil divide a fundação com três nomes. Manohar Paluri ajudou a criar o FAIR, laboratório de pesquisa em IA da Meta. DJ Patil, amigo de longa data de Weil, foi o primeiro a ocupar o posto de chefe de ciência de dados no governo federal americano. Solomon Reisberg vem da Terremoto Biosciences e trabalha com caça de moléculas. A equipe inicial tem ainda um pesquisador que participou do experimento de fusão nuclear com ganho líquido de energia no Lawrence Livermore National Laboratory.
O gargalo que a Warp quer atacar
Achar uma molécula promissora resolve pouco. Depois vem a otimização: centenas, às vezes milhares de variantes sintetizadas e testadas até surgir uma versão com eficácia e segurança aceitáveis. Hoje boa parte desse trabalho repetitivo vai para prestadoras chinesas, que cobram menos e entregam rápido. A WuXi AppTec é a mais conhecida delas.
A WuXi entrou meses atrás na lista do Pentágono de empresas com supostos laços com as forças armadas chinesas. A Justiça americana barrou a restrição depois, mas o episódio deixou farmacêuticas dos EUA desconfortáveis em mandar dados sigilosos de pesquisa para fora. A Warp quer ser a opção doméstica. “Precisamos trazer de volta da China capacidades científicas críticas”, escreveu Weil no X, comparando o risco ao que, na visão dele, já aconteceu com energia solar, drones e manufatura.
O plano é um laboratório totalmente automatizado, e Weil afirma que braços robóticos e chips de IA já foram comprados. Enquanto as máquinas não assumem tudo, os químicos da equipe vão trabalhar com câmeras e luvas com sensores de pressão, gravando cada movimento para alimentar o treinamento dos modelos. É uma aposta parecida com a de empresas de robótica que coletam demonstrações humanas, só que aplicada à bancada de química.
O que isso tem a ver com o Brasil
O Brasil importa a maior parte dos insumos farmacêuticos ativos que usa, com China e Índia como principais fornecedores. Uma briga entre EUA e China por essa cadeia mexe com preço e prazo de matéria-prima aqui também. Ninguém deve esperar remédio novo tão cedo: qualquer molécula que saia desse laboratório ainda passa por anos de testes clínicos, e o anúncio não trouxe cronograma nem as doenças que a Warp pretende atacar primeiro.
