Pesquisadores da Kaspersky identificaram uma nova família de malware voltada especificamente para centrais multimídia automotivas com Android — o tipo de sistema que hoje equipa milhões de carros no Brasil e no mundo. A descoberta, feita em junho de 2026, coloca em xeque a segurança de dispositivos que há poucos anos eram apenas um rádio com tela.
O malware mira os aparelhos da fabricante DoFun e opera de forma furtiva: sem ícone visível, sem alertas, sem qualquer sinal de que algo está errado. A central continua funcionando normalmente para o motorista, mas em segundo plano reporta informações do veículo a servidores externos a cada 90 minutos. O objetivo não é espionagem veicular, mas sim monetização clandestina — o sistema infectado passa a integrar uma botnet usada para fraudes com anúncios na internet.

O detalhe mais preocupante é por onde o vírus entrou: não por um aplicativo suspeito baixado manualmente, mas pelo próprio canal oficial de atualizações do firmware. O TWCore, o app responsável por manter o sistema atualizado, foi manipulado pelos invasores para distribuir os arquivos maliciosos diretamente às centrais — um vetor quase impossível de detectar pelo usuário comum. Segundo Dmitry Kalinin, autor do estudo na Kaspersky, esse é o primeiro caso documentado de malware encontrado em uma central multimídia automotiva.
A Kaspersky atribui o ataque ao grupo MoYu com alto grau de certeza. O mesmo grupo já estava por trás do esquema BADBOX, uma operação que comprometeu caixas de TV Android pela internet (IPTV) usando táticas similares. A migração do ataque para o segmento automotivo era questão de tempo: com Android ganhando espaço nos painéis de veículos modernos, a superfície de ataque cresceu e se tornou atrativa para redes criminosas organizadas.
No contexto brasileiro, onde centrais multimídia Android aftermarket são extremamente populares — especialmente em carros populares que saem de fábrica sem sistema de infotenimento integrado —, a ameaça merece atenção redobrada. A DoFun confirmou que as falhas no canal de distribuição foram corrigidas, mas usuários com aparelhos mais antigos que não recebem mais atualizações permanecem em situação de risco. A recomendação prática é adquirir centrais multimídia de fabricantes com histórico de suporte contínuo e manter o firmware atualizado exclusivamente por fontes oficiais.
