A crise de memórias que vem encarecendo PCs, celulares e consoles ao longo de 2026 ganhou nesta semana um porta-voz de peso: a própria Valve. Em entrevista à Bloomberg, os engenheiros Yazan Aldehayyat e Pierre-Loup Griffais, responsáveis pelo Steam Machine, disseram que o cenário está piorando e que a dimensão do problema passou bem longe do que a empresa havia projetado quando planejou o console.
O recado mais duro é sobre produção. Segundo os engenheiros, a Valve está fabricando tudo o que consegue, mas esbarra na capacidade de memória disponível — ou seja, não é falta de vontade nem de demanda, e sim de chip. Eles também explicaram um detalhe que costuma passar despercebido: existe uma defasagem de três a seis meses entre o que acontece nos estoques em larga escala e o que o consumidor vê na prateleira. Traduzindo, o pior do repasse de preço ainda nem chegou às lojas.

Por que isso aconteceu
A raiz do problema não está nos games. Está na inteligência artificial. Ao longo de 2025 e 2026, as fabricantes de memória redirecionaram capacidade para atender contratos bilionários de data center, onde a margem é muito maior. O que sobrou para o mercado de consumo encolheu, e a consequência apareceu em cascata: memória DDR5 de PC multiplicou de preço, notebooks e celulares tiveram reajustes, e até fabricantes de aparelhos de streaming subiram tabela. Relatórios do setor indicam que o aperto pode se arrastar até 2027, simplesmente porque abrir uma nova fábrica de memória é um projeto de anos, não de meses.
Para o Steam Machine, isso pesa duas vezes. O aparelho foi anunciado com valores de US$ 1.049 na configuração de 512 GB e US$ 1.428 no pacote de 2 TB com controle — números que já nasceram mais altos do que a Valve gostaria justamente por causa do custo dos componentes. Um console-PC vive de custo-benefício, e cada dólar a mais na memória come exatamente o argumento que faria alguém escolher o Steam Machine no lugar de montar a própria máquina.

O que muda para quem está no Brasil
Aqui a conta é ainda mais salgada. O Steam Machine não tem distribuição oficial no país, então qualquer unidade chega por importação, com dólar e imposto por cima. Mas o efeito colateral atinge muito mais gente do que os interessados no console da Valve: quem pretende montar ou atualizar um PC neste segundo semestre está pegando o pico do repasse. Kits de memória DDR5 que custavam algumas centenas de reais no começo do ciclo hoje beiram — e às vezes passam — a casa dos milhares, e os SSDs NVMe seguiram o mesmo caminho por conta da alta da memória NAND.
A recomendação prática é pouco animadora, mas honesta: se a peça está no orçamento agora e a máquina é necessária agora, esperar tem se mostrado uma aposta ruim. O histórico dos últimos doze meses mostra correções pontuais, nunca uma queda estrutural. E, se a leitura da Valve estiver certa, o que já é caro ainda tem espaço para subir antes de estabilizar.
Onde comprar:

O que a fala da Valve escancara é que nem quem tem escala e caixa está imune. Se uma empresa que negocia volumes grandes admite estar limitada pela oferta, o consumidor final está no fim de uma fila que ainda vai andar devagar por um bom tempo.