Funcionários terceirizados do TikTok avisaram a chefia mais de uma vez que a plataforma expunha crianças a exploração sexual e a conteúdo sobre suicídio. A direção, segundo eles, não fez nada. Os relatos estão em registros judiciais revelados pela rádio pública americana NPR nesta terça-feira (20) e foram entregues em março a um tribunal federal nos Estados Unidos.
O que dizem os depoimentos
De acordo com os contratados, menores apareciam em publicações de teor sexual vendidas dentro do próprio aplicativo. Como o acesso era pago, eles alertaram que o TikTok faturava com material possivelmente criminoso. Outra parte dos documentos trata do TikTok Live: durante transmissões com menores em situação sexual, espectadores mandavam presentes virtuais, que viram receita para a empresa.

Os depoentes também apontaram brechas na verificação de idade. Adolescentes conseguiam burlar as travas, abrir vídeos restritos a adultos e esconder isso dos pais. Quando surgiu a ideia de estudar quantos usuários eram de fato menores, a empresa teria recusado. Pelos registros, o receio era que o levantamento chegasse à FTC, a agência americana que cuida de comércio e defesa do consumidor.
Um histórico de processos
A FTC investiga o TikTok desde 2024 por coletar e guardar informações de crianças com menos de 13 anos sem autorização dos responsáveis. Dois anos antes, em 2022, o app entrou, junto com Google, Meta e Snap, em uma ação que acusa as quatro empresas de desenhar redes sociais que fazem mal a jovens e de esconder esses riscos do público. Depoimentos como os revelados agora servem para os autores tentarem provar que as plataformas sabiam do problema e escolheram não agir.
A resposta do TikTok
Em nota à imprensa americana, um porta-voz disse que as falas foram “selecionadas a dedo” por advogados da parte contrária e que a reportagem deixou de fora documentos que contradizem os depoimentos. A empresa afirma ter gastado bilhões de dólares em segurança e criado dezenas de recursos para proteger menores. Não detalhou quais nem quanto foi para cada um.
O processo corre nos Estados Unidos, mas as falhas descritas não dependem de país. Trava de idade fácil de contornar e lives monetizadas com pouca fiscalização afetam qualquer usuário do app. Para quem tem filho no TikTok, a conclusão prática é não tratar a restrição de idade da plataforma como garantia.
No Brasil, o TikTok já foi multado em R$ 153 milhões pela forma como lida com dados de crianças e adolescentes. Nos EUA, a ação segue em andamento e a empresa nega as acusações.
