A Prefeitura de São Paulo admitiu nesta terça-feira (20) que informações restritas do Smart Sampa, a rede municipal de videomonitoramento com reconhecimento facial, ficaram expostas na internet. Segundo reportagem publicada no mesmo dia, um repositório aberto guardou por cerca de 11 meses material suficiente para assistir ao vivo às imagens de parte das mais de 58 mil câmeras da cidade.
O pacote tinha 181 pares de login e senha de usuários autorizados, um cadastro com informações pessoais de mais de 6 mil profissionais da área e um passo a passo para montar uma cópia da interface do sistema em computador ou celular. Entre os pontos visíveis estavam 1.157 câmeras em UBSs, 427 em escolas de educação infantil, 396 em escolas de ensino fundamental, 118 em Caps (inclusive unidades infantis), 80 em hospitais e 68 em UPAs.

O que dava para fazer com as senhas
As credenciais abriam a plataforma da SentinelX, empresa que cuida da manutenção do Smart Sampa. Parte das senhas seguia um padrão montado a partir do cadastro dos próprios guardas, e o login não pedia verificação em duas etapas. Lá dentro, a busca aceitava nome, CPF e placa e ainda devolvia boletins de ocorrência. Um especialista ouvido na apuração apontou outro problema: algumas interfaces que recebem leituras de placas e rostos não checam direito quem envia o dado, o que permitiria inserir registros falsos na base.
O repositório saiu do ar depois da denúncia. A autenticação em dois fatores só foi ligada após os questionamentos da imprensa.

A versão da Prefeitura
Ricardo Nunes (MDB) nega falha técnica. Segundo o prefeito, um guarda da GCM concursado em 2023, lotado no setor que cuidava das senhas, divulgou o material de forma ilegal e já foi afastado. Nunes disse que a gestão sabia da situação e a mantinha como uma “isca” para flagrar acessos irregulares, que nenhum uso indevido foi registrado e que o sistema é “absolutamente seguro”. A Prefeitura também afirma que o repositório não continha senhas, versão que contradiz a apuração. A tese da isca é difícil de engolir: deixar imagens ao vivo de creches e Caps infantis acessíveis por quase um ano, de propósito, seria mais grave que o vazamento acidental.
Quem controla o sistema
Lançado em 2024, o Smart Sampa compara imagens com bancos policiais para identificar rostos e placas de carro. A operação fica com o consórcio Smart City, formado originalmente por CLD, Flama Serviços, PK9 e Camerite. A SentinelX entrou em dezembro de 2025 no lugar da Camerite, e a empresa só passou a existir 30 dias após a assinatura do contrato licitado em 2023. É ela quem detém o código-fonte, os modelos de IA e as bases de treino. A Prefeitura não tem acesso a nenhum desses itens, diz fiscalizar o cumprimento de requisitos técnicos e não faz auditoria independente dos algoritmos. As empresas do consórcio não responderam aos pedidos de comentário.

Pelo cronograma anunciado por Nunes, em cerca de três meses todos os usuários terão de ir à Secretaria de Segurança Urbana para refazer o cadastro, agora com reconhecimento facial. Até lá, as senhas passaram a ser individuais e o segundo fator de autenticação já está ativo.
