Um julgamento em andamento na Coreia do Sul está revelando os detalhes de um dos casos mais graves de espionagem industrial da história da indústria de semicondutores. A ChangXin Memory Technologies (CXMT), fabricante chinesa de memória, é acusada de ter acelerado seu desenvolvimento tecnológico usando segredos comerciais obtidos ilegalmente da Samsung — e as evidências apresentadas no tribunal são contundentes.
O plano de 600 etapas que saiu da Samsung
O centro do caso é um engenheiro identificado apenas pelo sobrenome Jeon, que passou 28 anos trabalhando na Samsung antes de deixar a empresa em 2016 para ingressar na CXMT. Segundo os depoimentos, Jeon não saiu de mãos vazias: levou consigo um documento interno chamado Plano de Receita de Processos (PRP), com 600 etapas detalhadas da fabricação de chips DRAM de 18 nm da Samsung, incluindo sequências de produção, especificações de equipamentos, parâmetros de implantação, temperaturas e pressões exatas de cada fase do processo.

Jeon foi condenado a sete anos de prisão. No julgamento, ficou evidente que a CXMT não apenas recebeu as informações como as utilizou diretamente: a empresa, que não possuía institutos de pesquisa próprios em sua fundação, lançou produção de DDR4 com nó de 22 nm em 2019 e saltou para 18 nm em 2023 — uma evolução que normalmente demanda três a cinco anos por nó de processo em empresas que desenvolvem a tecnologia de forma orgânica.
O contexto da corrida chinesa por semicondutores
A CXMT representa o esforço da China de reduzir sua dependência da memória DRAM importada, dominada por três fabricantes: Samsung, SK Hynix e Micron, todas fora do território chinês. Diante de sanções dos EUA limitando o acesso à tecnologia de ponta, fabricantes como CXMT buscam atalhos para comprimir décadas de desenvolvimento tecnológico.
O caso não é isolado. Nos últimos anos, a Coreia do Sul abriu dezenas de processos por vazamento de segredos industriais para empresas chinesas, principalmente nas áreas de memória, baterias e displays. O governo sul-coreano chegou a elevar as penas mínimas para crimes desse tipo, reconhecendo a escala do problema.
Para o mercado global de memória — e para consumidores que compram smartphones, notebooks e SSDs no Brasil — o impacto é ambíguo: se por um lado a concorrência chinesa pode pressionar os preços para baixo a longo prazo, por outro a erosão da vantagem tecnológica das líderes de mercado levanta dúvidas sobre onde o investimento em P&D genuíno será financiado no futuro.
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