O debate sobre privacidade em óculos inteligentes ganhou mais um capítulo — e desta vez o estopim foi a reação do próprio fabricante. Leonardo Del Vecchio, presidente da Ray-Ban e executivo da EssilorLuxottica, respondeu com um emoji de “chorando de rir” a uma campanha que criticava os óculos inteligentes desenvolvidos em parceria com a Meta. A atitude não pegou bem e reacendeu uma discussão que a indústria vem tentando contornar.
A provocação partiu de ativistas em Londres, que modificaram peças publicitárias dos óculos da Ray-Ban Meta e trocaram o slogan por uma versão irônica, associando o produto a filmagens invasivas. Ao ser cobrado pela reação debochada, o executivo rebateu: “Se nós não podemos rir sobre isso, por que alguém deveria confiar em nós?”. Para os críticos, porém, o problema é exatamente esse — tratar como piada uma preocupação concreta de quem pode ser filmado sem saber.

As queixas em torno desse tipo de aparelho não são novas nem infundadas. Os óculos permitem gravar vídeos e tirar fotos de forma discreta, e já houve episódios envolvendo uso para filmagens sem consentimento. Uma função de reconhecimento facial chegou a ser detectada no código e foi retirada após denúncias, e houve ainda relatos de vídeos íntimos indo parar nas mãos de moderadores humanos. Como resposta, a Meta afirma ter criado um mecanismo que bloqueia a câmera quando o LED frontal de gravação é encoberto, tentando garantir que ninguém filme às escondidas.
O caso ilustra bem a tensão central desse mercado em ascensão: os óculos inteligentes são apontados como a próxima grande categoria de gadgets, mas trazem uma câmera vestível para o rosto das pessoas em espaços públicos. Para o consumidor brasileiro que namora a ideia de comprar um modelo do tipo, fica o lembrete de que a comodidade de registrar tudo sem tirar o celular do bolso vem acompanhada de responsabilidades — e de um debate sobre privacidade que está longe de terminar.
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