Enquanto a corrida por chips de inteligencia artificial domina as manchetes, a computacao quantica avanca em outro ritmo, mais discreto, porem estrategico. A ultima novidade veio da Europa: o instituto holandes QuTech anunciou nesta sexta-feira (9) o Tuna-17, apresentado como o primeiro processador quantico de arquitetura aberta fabricado integralmente por uma cadeia de suprimentos europeia. Toda a producao ficou concentrada na regiao de Delft, nos Paises Baixos, um detalhe que a instituicao faz questao de destacar.
Vinculado a Universidade de Tecnologia de Delft, o Tuna-17 carrega 17 qubits e 24 acopladores ajustaveis. Na pratica, essa configuracao permite experimentar tecnicas de correcao de erros, um dos maiores desafios da area, e rodar uma ampla variedade de algoritmos por meio de portas logicas universais. Nao e um numero de qubits que rivaliza com os maiores sistemas comerciais dos Estados Unidos, mas nao e essa a disputa que o projeto quer travar.

O ponto central e politico e economico tanto quanto tecnico. Ao adotar uma arquitetura aberta, a QuTech se posiciona contra a integracao vertical das grandes empresas do setor, que costumam manter hardware e software fechados. A ideia e garantir interoperabilidade e, principalmente, soberania tecnologica: um continente que nao quer depender de fornecedores externos para uma tecnologia considerada critica para as proximas decadas. Para reforcar esse carater, o instituto vai disponibilizar o chip gratuitamente via nuvem, permitindo que estudantes e pesquisadores desenvolvam habilidades diretamente em maquinas reais, e nao apenas em simuladores.
O Tuna-17 faz parte do projeto estrategico EU Flagship OpenSuperQPlus, que ja mira um sucessor ainda mais robusto, o Tuna-28. Para o leitor brasileiro, o movimento e um bom termometro de como a computacao quantica saiu dos laboratorios teoricos e virou peca de geopolitica tecnologica. A tendencia de “regionalizar” a producao de componentes estrategicos, ja vista em chips de silicio, agora chega tambem ao mundo quantico, e deve ditar boa parte das disputas de tecnologia nos proximos anos.