A Qualcomm divulgou os números do terceiro trimestre do ano fiscal de 2026 e o balanço trouxe um recado incômodo para quem acompanha o mercado de celulares: o lucro líquido despencou 25%, para US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10,1 bilhões), e a receita total recuou 4%, somando US$ 9,95 bilhões. O responsável apontado pela própria companhia tem nome e sobrenome — a crise das memórias.
Segundo o presidente-executivo Cristiano Amon, a fabricante enfrenta “aumentos sem precedentes nos preços das memórias e restrições de oferta”, um efeito colateral direto da corrida pela inteligência artificial. Com data centers e servidores de IA consumindo chips de memória em ritmo acelerado, sobra menos para o resto da indústria e o pouco que sobra fica mais caro. O golpe foi sentido em cheio no núcleo do negócio: a divisão de processadores para smartphones encolheu 20% e ficou em US$ 5,09 bilhões.

Nem tudo foi negativo. A Qualcomm vem se esforçando para depender menos do celular e colheu frutos em outras frentes: a receita com automotivo saltou 61%, para US$ 1,59 bilhão — o 23º trimestre seguido de crescimento de dois dígitos nessa área —, enquanto a divisão de IoT alcançou US$ 1,83 bilhão. A meta declarada é ambiciosa: chegar a US$ 40 bilhões em receita fora dos smartphones até o ano fiscal de 2029. Para o próximo trimestre, a companhia projeta faturamento entre US$ 9,7 bilhões e US$ 10,5 bilhões.
Para o consumidor brasileiro, o alerta é indireto, mas real. Se os chips Snapdragon que equipam boa parte dos celulares Android ficam mais caros de produzir, a conta tende a chegar no preço final dos aparelhos — os mesmos que já vêm sofrendo com dólar alto e reajustes seguidos. A crise das memórias, antes um assunto restrito aos bastidores da indústria, começa a se traduzir em algo bem mais palpável: o custo do próximo smartphone.
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