A Pillow, biblioteca mais usada para manipular imagens em Python, tem uma vulnerabilidade crítica que permite a um invasor executar comandos remotamente em servidores. O gatilho está no nome do arquivo, e não no conteúdo. Basta que o sistema processe um arquivo EPS cujo nome tenha sido escolhido pelo atacante para que instruções maliciosas cheguem ao sistema operacional.
O EPS é um formato vetorial comum em design gráfico e gráficas. Para abri-lo, a Pillow chama o Ghostscript, um programa externo que interpreta PostScript. O erro é que a biblioteca repassa o nome do arquivo ao Ghostscript sem checar se ali há comandos embutidos. Os mantenedores deixaram isso explícito no comunicado de segurança publicado no GitHub: a falha é acionada pelo nome, não por qualquer elemento dentro do documento. Na prática, uma imagem perfeitamente normal vira vetor de ataque se o atacante controlar como ela é nomeada.
Duas outras correções no mesmo pacote
A atualização também fecha a CVE-2026-112403, que faz o servidor travar ao gerar miniaturas de fotos JPEG. Miniaturas são aquelas versões reduzidas usadas em pré-visualizações, galerias e feeds, ou seja, uma rotina que roda em praticamente todo site que aceita upload de imagem. Segundo o analista David Korczynski, da Ada Logics, o problema foi encontrado pela Anthropic usando o Claude em um trabalho de análise de segurança de software de código aberto, com validação manual feita pela Ada Logics.
A terceira brecha, CVE-2026-112393, estava no código desde 2013. Ela aparece quando o sistema salva uma imagem comprimida diretamente na memória, sem gravar em disco. É um padrão frequente em aplicações web que recebem fotos de usuários e as tratam antes de exibir. Treze anos é bastante tempo para um defeito passar despercebido numa biblioteca dessa escala.
Por que isso pesa no Brasil
A Pillow está por trás de muita coisa que o brasileiro usa sem saber: lojas virtuais que redimensionam foto de produto, sistemas de cadastro que pedem selfie ou documento, plataformas de prefeituras e órgãos públicos feitas em Django ou Flask. Quem mantém esse tipo de serviço precisa conferir a versão instalada hoje. Se o servidor aceita arquivos de terceiros e tem o Ghostscript instalado, o risco é concreto.
O que fazer
A correção está no Pillow 13.0.0, já disponível no PyPI. Há um porém: a nova versão abandonou o suporte a versões antigas do Python, então projetos parados no tempo vão precisar atualizar o interpretador junto, o que pode exigir testes antes de ir para produção.
Para quem não consegue atualizar já, as diretrizes do próprio projeto recomendam desinstalar o Ghostscript de servidores que recebem arquivos do público, evitar gerar miniaturas de imagens enviadas por desconhecidos e não processar imagens diretamente na memória. São medidas temporárias. A saída definitiva é migrar para a 13.0.0.
