Mais de um quarto de século depois do lançamento, o PlayStation 2 ainda guardava segredos. O pesquisador canadense conhecido como DiscoStarslayer anunciou neste mês que conseguiu quebrar o CXP102064, o chip MechaCon dos primeiros modelos do console, e extrair dele o firmware e as chaves criptográficas que a Sony protegeu desde o ano 2000. O trabalho levou quatro anos de engenharia reversa e contou com a ajuda de uma segunda pesquisadora, identificada como Libby, que encontrou a brecha decisiva.
MechaCon é a abreviação de Mechanics Controller. O nome sugere um componente modesto, responsável por girar o disco e mover a lente do leitor, mas na prática ele é uma das principais muralhas de segurança do videogame: autentica os jogos originais, cuida da proteção MagicGate dos cartões de memória e descriptografa os arquivos executáveis no formato KELF. Por isso a Sony blindou o código interno, e por isso ele resistiu tanto tempo.

Ácido, microscópio e uma falha
O caminho até o firmware não foi por software, pelo menos não no começo. DiscoStarslayer removeu quimicamente o encapsulamento do chip para expor o silício e fotografou os circuitos ao microscópio, uma técnica conhecida como dump óptico. As imagens saíram cheias de imperfeições, mas foram suficientes para que Libby localizasse uma vulnerabilidade. A partir dela, a dupla desenvolveu um método puramente por software que lê o conteúdo protegido, incluindo as chaves.
A quebra se aplica à primeira geração do MechaCon, presente nos PS2 Fat iniciais. As revisões posteriores, apelidadas de Dragon, já contavam há anos com ferramentas como MechaPwn e MechaDump, que alteram configurações ou extraem dados em alguns consoles. Era justamente o modelo mais antigo que continuava fechado.
O que muda para quem ainda tem um PS2
Vale deixar claro o que a descoberta não é: uma nova forma de rodar cópias ou homebrew. Isso já existia por cartão de memória, HD interno e falhas do reprodutor de DVD desde a década de 2000. O ganho é de conhecimento. Com o firmware aberto, desenvolvedores passam a entender por completo a conversa entre o MechaCon e o resto do sistema, o que permite reproduzir a autenticação de discos com fidelidade nos emuladores e diagnosticar defeitos que hoje ninguém sabe explicar em consoles antigos.
Para o Brasil, onde o PS2 foi o console mais popular de sua geração e ainda tem base ativa em lojas de usados e feiras, isso significa mais chance de manter os aparelhos vivos nas próximas décadas, com reparos que não dependem de peças ou suporte oficial da Sony. Quem ainda liga o seu de vez em quando sabe que um memory card novo e um controle em bom estado continuam sendo as peças mais difíceis de achar.
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