Uma reportagem do jornal holandês Trouw colocou o Pokémon GO no centro de uma polêmica espinhosa: a de que os bilhões de escaneamentos feitos por jogadores ao redor do mundo poderiam estar alimentando o treinamento de drones militares. A repercussão foi rápida o suficiente para a Niantic, criadora do jogo, vir a público negar a associação e tentar separar o que é uso civil do que é especulação. A empresa afirma, em resumo, que os dados de quem joga não estão sendo usados para fins de guerra.
Para entender o tamanho do número, vale lembrar como o jogo funciona. Desde 2021, o Pokémon GO oferece um recurso opcional em que o jogador aponta a câmera para pontos de interesse do mundo real — monumentos, praças, fachadas — e ajuda a mapeá-los em três dimensões. É a soma desses gestos individuais que chegou à marca de cerca de 30 bilhões de escaneamentos, um acervo gigantesco de informação espacial sobre o planeta. O problema é que toda base desse tamanho desperta perguntas inevitáveis sobre para onde, afinal, esses dados vão.

A resposta da Niantic tem dois pilares. O primeiro é o consentimento: a empresa frisa que o escaneamento é voluntário e feito por quem optou pelo recurso, não algo coletado às escondidas durante a caça aos monstrinhos. O segundo é a mudança de mãos do jogo. Segundo a desenvolvedora, agora que o Pokémon GO está sob a Scopely, os dados não são compartilhados com a Niantic Spatial — braço que herdou a tecnologia de mapeamento. A eventual colaboração com a empresa Vantor, citada na reportagem, estaria em estágio inicial e sem envolver informações de usuários.
Mesmo com a negativa, o episódio mexe num ponto sensível para o jogador brasileiro: a confiança de que um passatempo não está, sem que ninguém perceba, virando insumo para outros fins. A tecnologia de mapas espaciais tem aplicações civis legítimas — robôs de entrega e navegação autônoma estão entre os exemplos —, mas a fronteira entre o uso comercial e o militar costuma ser nebulosa quando se fala de dados em escala global. O recado que fica é o de sempre: vale a pena entender exatamente quais permissões um aplicativo pede antes de tocar em “aceitar”.