O Google concordou em abrir uma das portas mais fechadas do Android — mas colocou uma catraca na entrada. A empresa anunciou o Play Catalog Access Program, que vai permitir a lojas de aplicativos rivais acessar o catálogo da Play Store. A concessão, porém, tem preço: US$ 5.000 de taxa inicial (cerca de R$ 25 mil) e mais US$ 5.000 anuais cobrados a título de “análise de segurança e política”, sem contar as taxas de serviço padrão que continuam valendo.
A medida não nasceu de boa vontade. Ela encerra uma longa disputa judicial com a Epic Games nos Estados Unidos, cujo acordo foi firmado em novembro de 2025. “Concordamos com a Epic em retirar nosso pedido de modificação da liminar no tribunal dos EUA, em vez de prolongar esse processo que gera incerteza para o ecossistema”, disse Dan Jackson, porta-voz do Google. Em outras palavras: a empresa preferiu abrir o catálogo sob suas próprias condições a arriscar uma imposição pior vinda do tribunal.
Os requisitos para as lojas interessadas dão a medida do controle que o Google mantém. Elas não podem distribuir os apps do catálogo fora dos EUA, precisam ter políticas de segurança claras e não discriminatórias e devem registrar menos de 1% de tentativas de instalação de malware. O lançamento é exclusivo para os Estados Unidos e começa em 22 de julho de 2026 — não há qualquer previsão para o Brasil, o que torna o assunto, por enquanto, observação à distância para quem está por aqui.
Há, no entanto, uma contradição que merece atenção. Enquanto afrouxa uma trava para lojas rivais, o Google aperta outra na direção oposta: o sideloading — a instalação de apps fora das lojas oficiais — vem ganhando restrições novas, com verificação obrigatória de identidade do desenvolvedor e espera de até 24 horas para instalar aplicativos não registrados. O saldo é um Android que abre o catálogo para concorrentes cadastrados e pagantes, ao mesmo tempo em que fecha o cerco sobre a distribuição verdadeiramente livre. Mais escolha para o usuário, sim, mas dentro de um cercado que continua sendo desenhado pelo Google.