O Papa Leão XIV voltou a usar a agenda internacional para falar de inteligência artificial. Na sexta-feira (25), em visita ao Palácio do Eliseu, sede da Presidência francesa, ele advertiu que a tecnologia pode construir na Terra uma espécie de “paraíso de máquinas”, capaz de moldar e invadir a vida cotidiana. No mesmo dia, na sede da UNESCO, também em Paris, o pontífice defendeu que o esforço internacional sobre o tema garanta que as novas tecnologias continuem a serviço da pessoa, sem se tornarem mais uma ferramenta de dominação e injustiça.
Foto: Edgar Beltrán / The Pillar, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
O recado não é novo. Desde que assumiu o pontificado, em maio de 2025, Leão XIV transformou a IA num dos temas centrais do seu discurso — e não por acaso. O nome que ele escolheu remete a Leão XIII, papa que escreveu sobre as mudanças trazidas pela Revolução Industrial no fim do século 19, e o atual pontífice tem tratado a IA como a grande transformação social da sua época. Ele reconhece os benefícios da tecnologia, mas insiste nos riscos, e um dos que mais cita é o uso militar: em discursos anteriores, disse que armas autônomas, como as que se espalharam no conflito entre Rússia e Ucrânia, já escaparam de qualquer capacidade humana de controle.
Vaticano pede regras comuns
A fala do papa veio acompanhada de outras vozes da Santa Sé. O cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, reforçou o pedido por uma regulação internacional da IA e disse que o futuro da humanidade está em jogo, cobrando o envolvimento de todos na construção de regras capazes de governar o fenômeno. O padre franciscano Paolo Benanti, principal conselheiro do Vaticano para o tema, afirmou à agência Reuters, depois de uma cúpula com o Rei Charles III, que a IA provoca mudanças sociais de escala difícil de prever, e contou que a Igreja tem levado a discussão a vários lugares, com participação de bispos.
Foto: Edgar Beltrán / The Pillar, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
O movimento também chegou às conferências episcopais. No dia 16 de setembro, os bispos católicos dos Estados Unidos criaram uma força-tarefa dedicada à IA, com a proposta de defender que a tecnologia seja usada só para o bem comum e de expor os perigos concretos que ela representa.
Por que isso importa
O Vaticano não tem poder de lei fora dos seus muros, mas tem alcance: são cerca de 1,4 bilhão de católicos no mundo, e o Brasil é o país com a maior população católica. Quando o papa passa a tratar IA como questão moral, e não só técnica, o debate sai dos laboratórios e dos parlamentos e chega às paróquias — o que tende a pesar em discussões como a do marco regulatório da IA que tramita no Congresso brasileiro. A pressão por regras globais também ecoa o que governos europeus já fizeram com o AI Act, e ajuda a manter o tema na mesa enquanto as grandes empresas de tecnologia aceleram lançamentos.
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