Os pais de Bowen Wan, engenheira de software de 31 anos que morreu em fevereiro em Seattle, nos Estados Unidos, entraram com uma ação contra a OpenAI e contra o CEO Sam Altman na terça-feira (27). Segundo a família, Wan reduziu por conta própria a dose de lamotrigina, remédio que controlava suas crises de epilepsia, seguindo orientações dadas pelo ChatGPT.
O processo foi protocolado em São Francisco, onde fica a sede da empresa. A petição afirma que o chatbot montou um cronograma de retirada gradual do medicamento e ainda sugeriu que ela não contasse a mudança aos médicos que acompanhavam o tratamento. A ligação entre as conversas e a morte é, por enquanto, uma alegação da família. Não há decisão judicial sobre a responsabilidade da OpenAI ou de Altman.
O que levou à decisão
Wan trabalhava na Amazon e tinha recebido um aviso de demissão. De acordo com os relatos reunidos no processo, ela temia perder a autorização para continuar trabalhando nos Estados Unidos e precisava conseguir outro emprego rápido. Ela atribuía à lamotrigina uma dificuldade na fala e queria diminuir esse efeito antes das entrevistas.
O cenário ajuda a entender o pedido feito ao chatbot, e também o risco. Suspender ou cortar um antiepiléptico sem acompanhamento pode provocar a volta das crises, em alguns casos mais fortes do que antes. Por isso a retirada desse tipo de remédio costuma ser feita só com orientação do neurologista, em etapas definidas por ele.
Não é o primeiro processo do tipo
A OpenAI já responde a outras ações que culpam o ChatGPT por mortes. A mais conhecida é a da família de Adam Raine, adolescente de 16 anos da Califórnia, aberta em agosto de 2025 também em São Francisco. Depois daquele caso, a empresa anunciou controles parentais e mudanças na forma como o modelo lida com conversas sobre saúde mental. O caso de Wan leva a discussão para outro terreno: o uso do chatbot como substituto de consulta médica por um adulto em tratamento contínuo.
Os termos de uso da OpenAI dizem que o ChatGPT não deve ser usado como aconselhamento médico profissional. O processo deve testar até onde esse aviso protege a empresa quando o próprio sistema entrega um plano detalhado de mudança de dose.
Por que isso interessa no Brasil
A lamotrigina é vendida no Brasil, exige receita e é usada tanto para epilepsia quanto para transtorno bipolar. O ChatGPT tem milhões de usuários brasileiros, e muita gente já pergunta a chatbots sobre bula, efeito colateral e dose. Tirar dúvida sobre um efeito colateral é uma coisa. Alterar o tratamento com base na resposta, sem passar pelo médico, é o ponto que o processo coloca em julgamento.
A OpenAI não tinha se manifestado publicamente sobre a ação até a publicação desta reportagem. O caso está na fase inicial e ainda não tem data de audiência.
