
O avanço acelerado da inteligência artificial voltou ao centro do debate diplomático. Na abertura do Diálogo Global sobre Governança da IA, realizado em Genebra nesta segunda-feira (6), o secretário-geral da ONU, António Guterres, fez um apelo direto por uma regulamentação global da tecnologia — e usou um tom pouco usual para o cargo, alertando para os riscos de deixar a IA se desenvolver sem supervisão humana adequada, “antes que ela assuma o controle”.
O ponto mais concreto da fala foi a proposta de um “Compromisso de Segurança Infantil para IA”. A ideia é que empresas comprovem que seus sistemas são seguros antes de liberá-los para menores de idade — uma resposta a episódios recentes que expuseram os perigos do uso desassistido dessas ferramentas por crianças e adolescentes. Entre os casos citados estão relatos de automutilação associados à interação com chatbots e a geração de imagens sexualizadas de menores, problema que já envolveu assistentes de IA de grandes plataformas.
Para embasar a discussão, um painel independente com 40 especialistas elaborou a primeira avaliação científica global sobre o tema, que servirá de ponto de partida para um relatório mais completo previsto para 2027. O documento também acende o alerta sobre a concentração de poder: segundo os dados apresentados, os Estados Unidos concentram cerca de 75% da capacidade computacional voltada à IA e a China, outros 15% — o que deixa a esmagadora maioria dos países dependente de tecnologia desenvolvida fora de suas fronteiras.
Para o Brasil e demais nações emergentes, o recado tem peso prático. Sem regras internacionais e sem infraestrutura própria, esses países correm o risco de virar meros consumidores de sistemas cujas decisões e vieses são definidos em outro lugar. O debate promovido pela ONU ainda não gera obrigações legais, mas dá o primeiro passo para transformar princípios éticos em acordos concretos — algo que a indústria de tecnologia, hoje movida a lançamentos cada vez mais rápidos, tende a resistir.