Quem está adiando a troca de celular esperando preços melhores pode receber uma má notícia direto de dentro da indústria. Carl Pei, fundador e CEO da Nothing, afirmou que os smartphones devem continuar ficando mais caros — e apontou um culpado que normalmente passa despercebido na ficha técnica: a memória RAM. Segundo ele, o componente se tornou o item mais caro de um aparelho, à frente até do processador e da tela.
A explicação tem nome e sobrenome: inteligência artificial. O boom de data centers e modelos de IA disparou a demanda global por memória, e os fabricantes de chips priorizam esses clientes, que compram em volumes gigantescos. O resultado respinga em todo mundo que monta um celular. Pei deu um exemplo concreto: no caso do Nothing Phone (4a), o custo da memória dobrou entre a fase de projeto e o lançamento, e voltou a dobrar depois que o aparelho já estava à venda. Para um fabricante menor, que não tem o poder de negociação de uma Samsung ou Apple, esse tipo de oscilação é especialmente doloroso.
Na prática, o consumidor já sente o efeito. Pei estima aumentos de até US$ 100 sobre o preço de modelos equivalentes da geração anterior, e cita que na Índia aparelhos acima de 30 mil rupias subiram a partir de 7 mil rupias. Pior: a expectativa é que o cenário se mantenha ao longo de todo o próximo ano, com promoções sazonais oferecendo descontos menores do que os que o público se acostumou a ver. E o recado não vale só para a Nothing — o executivo afirma que Samsung e Google também estariam planejando reajustes pela mesma razão.
Para o mercado brasileiro, já castigado por impostos e câmbio, o alerta soa duplamente preocupante. Aqui, qualquer alta no custo de fabricação chega amplificada na etiqueta final, e a faixa intermediária — justamente onde mais se vende celular no país — costuma ser a mais sensível a esse tipo de pressão. A leitura prática é simples: se você já estava de olho em um modelo específico e o preço está razoável, talvez não compense apostar que ele vai cair muito nos próximos meses. A era dos saltos generosos de memória “de graça” a cada geração, ao que tudo indica, ficou para trás — pelo menos enquanto a IA seguir devorando todos os chips disponíveis.