Mais um capítulo da corrida bilionária da inteligência artificial: uma startup recém-saída do anonimato acaba de fechar uma das maiores rodadas seed da história do setor. A Mirendil, sediada em San Francisco e fundada por ex-pesquisadores da Anthropic, levantou US$ 200 milhões já avaliada em US$ 1 bilhão — tudo isso antes de ter um produto público no mercado.
O que chama atenção não é só o cheque, mas a tese por trás dele. Em vez de mirar mais um assistente de conversa para concorrer com ChatGPT e Gemini, a Mirendil quer construir uma IA capaz de fazer pesquisa em IA. A ideia é desenvolver sistemas que façam o que os próprios cientistas fazem hoje: projetar experimentos, iterar sobre problemas de engenharia e aprimorar modelos ao longo do tempo, com intervenção humana cada vez menor. É a aposta no chamado “autoaperfeiçoamento” — justamente o tema que tem dividido a comunidade de IA entre entusiasmo e alerta de segurança.
A lista de investidores reforça o peso da aposta. A rodada foi co-liderada por dois dos fundos mais influentes do Vale do Silício, a Andreessen Horowitz e a Kleiner Perkins, e contou ainda com a participação da NVIDIA — a fabricante de chips que se tornou peça central de qualquer projeto de IA de fronteira. Os fundadores Behnam Neyshabur e Harsh Mehta, ambos com passagem pela Anthropic, montaram um time de cerca de 20 pesquisadores recrutados também de xAI, Google DeepMind e OpenAI.
Por trás do discurso técnico, há um objetivo declarado de democratizar a pesquisa de ponta: a Mirendil afirma querer levar capacidades de P&D avançado para além do punhado de laboratórios bilionários que dominam a área, abrindo espaço para universidades e instituições menores. Resta saber se a promessa se sustenta — automatizar a criação de IA é, ao mesmo tempo, o sonho de eficiência das empresas e um dos cenários que mais preocupam pesquisadores de segurança, que pedem cautela com sistemas que se aprimoram sozinhos. Para o Brasil, o movimento reforça uma tendência clara: o dinheiro e os talentos seguem concentrados no exterior, mas as ferramentas resultantes tendem a chegar rápido ao nosso dia a dia.