Satya Nadella, presidente-executivo da Microsoft, fez um alerta que soa curioso vindo justamente de uma das empresas que mais vende inteligência artificial no mundo: companhias que terceirizam demais o uso de IA podem acabar quebrando. A declaração veio em entrevista ao programa de Fareed Zakaria, na CNN, e resume um receio que começa a aparecer nos bastidores da corrida por automação — o de que, ao delegar tudo a um fornecedor externo, o negócio perde aquilo que o torna competitivo.
Para Nadella, o problema não é usar IA de fora, e sim abrir mão do controle. “Qualquer empresa que não tenha esse controle essencialmente terceirizou seu pensamento”, afirmou. A lógica é simples: se cada decisão, cada análise e cada processo interno passa a depender de um modelo que a empresa não entende nem administra, ela deixa de ser dona da própria estratégia. Quando o fornecedor muda de preço, de política ou de rumo, quem depende dele fica sem saída.
O recado ganha peso no momento em que modelos de IA de código aberto se tornam alternativas mais baratas e flexíveis aos serviços fechados. Nadella recomenda um caminho intermediário: manter a posse dos dados, adotar camadas que permitam trocar de modelo sem refazer tudo, separar os sistemas internos do modelo em si e, quando fizer sentido, treinar soluções próprias. É uma defesa da autonomia — e, não por acaso, também um argumento a favor de plataformas como as da própria Microsoft, que vendem exatamente essa infraestrutura de controle.
Para o mercado brasileiro, o alerta é oportuno. Boa parte das empresas por aqui está começando agora a plugar IA em atendimento, vendas e operação, quase sempre apoiada em provedores estrangeiros. O aviso de Nadella não é para frear essa adoção, mas para lembrar que conveniência sem controle cobra um preço lá na frente. Vale o contraste: o mesmo executivo que prega cautela para as empresas admite que, do lado do consumidor, trocar dados pessoais por serviços gratuitos continua sendo um negócio aceitável — sinal de que a régua da dependência muda conforme quem está do outro lado.