A inteligência artificial virou item padrão no dia a dia corporativo, mas ainda não apareceu no resultado financeiro da maioria das empresas. É o que aponta um levantamento da consultoria McKinsey, que ouviu 1.719 executivos e profissionais espalhados por vários países: quase nove em cada dez organizações já usam IA com regularidade em pelo menos uma área, e ainda assim apenas 37% relatam impacto significativo sobre o EBIT — o lucro antes de juros e impostos. O percentual é o mesmo da edição anterior do levantamento.
O contraste com a percepção individual é grande. Oito em cada dez entrevistados dizem que a IA aumentou a própria produtividade, e metade afirma que a tecnologia ajuda a tomar decisões melhores. O problema é que ganho pessoal de produtividade nem sempre sobe para o balanço: se cada pessoa termina suas tarefas mais rápido, mas o processo ao redor continua igual, o tempo economizado se dilui antes de virar receita ou corte de custo.
O que separa quem lucra de quem só adota, segundo o estudo, é mudar o desenho do trabalho. As empresas classificadas como de alto desempenho em IA — 6% da amostra, aquelas que atribuem ao menos 5% do EBIT à tecnologia — são bem mais propensas a reconstruir fluxos inteiros do que a encaixar IA em processos herdados. Quase três quartos delas fizeram mudanças fundamentais nesses fluxos, contra 55% no ano anterior. E o porte pesa: entre companhias com receita acima de US$ 1 bilhão, 54% dizem ter levado a IA para toda a organização, quase o dobro da proporção vista nas menores.
Há também um sinal de alerta no orçamento. A IA já consome mais de 10% do orçamento de TI para 28% dos entrevistados, e 60% pretendem gastar mais no ano que vem — só que 20% afirmam que os custos operacionais da tecnologia, incluindo a conta de tokens, já limitam a expansão. Para o mercado brasileiro, onde a fatura vem em dólar e boa parte das empresas ainda está na fase de piloto, o recado da pesquisa é direto: o próximo problema não é escolher a ferramenta, é reorganizar a operação para que ela pague a própria conta.

