Data centers, inteligência artificial feita no país e regulação das big techs entraram no primeiro discurso de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) depois da vitória sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, neste domingo (25). Foram três promessas de tecnologia em uma fala de vitória, e todas aparecem com mais detalhe no plano de governo que a campanha registrou no TSE.
Energia limpa como moeda de troca
O argumento de Lula para os data centers é a matriz elétrica. Segundo ele, o Brasil talvez seja o país com maior capacidade de gerar energia renovável, e isso deve servir para trazer ao território nacional as estruturas que guardam e processam dados. A condição veio junto: quem instalar essas máquinas aqui terá de reservar uma fatia da capacidade para informações brasileiras.

O plano de governo transforma a frase em regra. O texto fala em contrapartidas de conteúdo local e em capacidade computacional destinada à demanda interna, além de supercomputadores operados por instituições nacionais e do fortalecimento da cadeia de nuvem. Há também exigências socioambientais: eficiência energética, migração gradual para fontes 100% renováveis e análise do efeito de cada projeto sobre a água, a rede elétrica e as comunidades do entorno.
Esse último ponto pesa. Data centers de IA consomem muita energia e, em muitos casos, muita água para refrigeração, e a instalação de grandes centros já gera atrito com moradores em outros países. A contrapartida de capacidade é a parte mais concreta da proposta para empresas e universidades brasileiras, que hoje pagam em dólar por processamento em servidores no exterior. Falta saber como ela será cobrada sem afastar os investimentos que o governo quer atrair; o plano não diz.
Modelos de linguagem em português
A segunda promessa foi uma IA nacional. Lula ligou o projeto ao ensino e disse que quer mais matemática e mais engenharia nas escolas porque não quer depender de sistemas chineses e americanos. No plano, isso vira o desenvolvimento e a manutenção de modelos de linguagem em português e em outros idiomas, voltados a problemas do país, com uma plataforma nacional de dados para treinar e avaliar esses sistemas.
O documento cita ainda apoio a fabricantes brasileiros de hardware e software de alto desempenho, reforço de institutos públicos de pesquisa e aproximação entre universidades e empresas. Agronegócio, saúde e serviços financeiros aparecem como as primeiras áreas de aplicação. Nenhum valor de investimento ou prazo foi apresentado.
Regulação das plataformas
Na parte mais política do discurso, Lula disse que o governo vai ter de regular as grandes empresas de tecnologia e voltou a defender que crimes cometidos na internet recebam o mesmo tratamento dos crimes fora dela. Ele acusou plataformas de lucrar no Brasil sem pagar impostos e de tentar interferir no resultado da eleição. A tese não é nova: em março, após a regulamentação do ECA Digital, o presidente já havia dito que crimes contra menores na internet não ficariam impunes. O plano de governo prevê ainda verba para prevenção, inteligência e investigação de crimes cibernéticos.
Lula venceu com 51,79% dos votos válidos, ou 64.256.232 votos, contra 48,21% e 59.826.041 votos de Flávio Bolsonaro. Foi a primeira vez que um candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar ganhou a Presidência. O quarto mandato começa em janeiro de 2027.
