A Itch.io, loja conhecida por concentrar jogos independentes, experimentais e de game jams, passou a deixar o jogador esconder da busca os títulos que declaram uso de IA generativa. A opção “sem IA” usa o aviso que a plataforma já cobra de quem publica: o desenvolvedor precisa informar se e como a tecnologia entrou no projeto. Com o filtro ligado, os jogos marcados com esse aviso deixam de aparecer na pesquisa.
A mudança foi anunciada em 3 de novembro, em uma publicação da própria Itch.io no Bluesky. A empresa disse que estava levando o filtro de divulgação de IA a mais pontos do site onde ele fazia falta, com destaque para a página de resultados de busca, que é por onde a maior parte dos jogadores encontra o que baixar.

Primeiro a faxina, depois o filtro
O recurso veio logo depois de um recado duro da plataforma. Na mesma rede social, a Itch.io contou ter apagado “alguns terabytes de lixo gerado por IA” e criticou quem sobe material em escala industrial, com a observação de que ter espaço para enviar 10 TB de modelos mal otimizados não obriga ninguém a fazer isso. O alvo ali era o volume de arquivos de baixa qualidade, e não a tecnologia em si.
Tanto que não há proibição. Jogos feitos com ajuda de IA continuam podendo ser publicados e vendidos na Itch.io. O que muda é o controle nas mãos de quem compra. Parte da comunidade elogiou a decisão, mas uma ala pede banimento total, algo que a loja não sinalizou até agora.

A Steam exige o aviso, mas não deixa esconder
A comparação inevitável é com a Steam. A loja da Valve também obriga desenvolvedores a declarar o uso de IA generativa, só que ainda não tem uma opção para tirar esses jogos da busca. A falta pesou no último Steam Next Fest, quando desenvolvedores reclamaram que seus projetos sumiam no meio de uma enxurrada de demos com cara de produção em massa. É o que a comunidade apelidou de “AI slop”: arte genérica, texturas que não conversam entre si, vozes sintéticas e mecânicas rasas, publicados em quantidade para pescar cliques, na mesma lógica do velho shovelware.
Onde fica a linha
Um banimento completo esbarraria em um problema prático: definir o que é um “jogo feito com IA”. A tecnologia pode aparecer só num rascunho de arte, em trechos de texto ou na programação de sistemas inteiros. O caso de Clair Obscur: Expedition 33, eleito jogo do ano em 2025, mostra o tamanho da confusão. O jogo saiu com elementos artísticos provisórios gerados por IA, depois removidos em atualização, e mesmo assim perdeu um prêmio no Indie Game Awards. Do outro lado, a Epic Games Store afirmou recentemente que usou IA generativa no desenvolvimento do seu novo launcher.
Na minha leitura, o filtro é a solução mais honesta disponível hoje: não pune quem usou IA para tarefas pontuais e tira da frente de quem não quer ver os jogos montados em série. Para o estúdio brasileiro que publica na Itch.io, porém, o aviso deixa de ser burocracia e passa a afetar diretamente quantas pessoas encontram o jogo.
O filtro já está ativo na página de busca da Itch.io e vale para todo título com o aviso de IA generativa preenchido. Jogos que omitirem a informação continuam aparecendo normalmente nos resultados.
