O governo federal atualizou o catálogo de perfis profissionais usados nas contratações de serviços de tecnologia da informação e criou seis novos cargos, incluindo o de Especialista em Infraestrutura de Inteligência Artificial. A mudança veio pela portaria SGD/MGI nº 5.921, anunciada em 22 de julho, e passa a valer a partir de 1º de setembro de 2026 para os órgãos que integram o SISP, o sistema que reúne a estrutura de TI do executivo federal.
Além do perfil voltado a IA, entram na lista: Analista de Teste de Intrusão, Analista DevOps, Analista DevSecOps, Especialista em Gerenciamento de Custos em Nuvem e Especialista em Práticas Sustentáveis de Infraestrutura de TIC.
O que cada perfil sinaliza
A escolha dos seis nomes conta uma história sobre o que mudou na operação de tecnologia do setor público. O especialista em infraestrutura de IA responde à necessidade de dimensionar e manter ambientes de GPU, pipelines de dados e modelos em produção — algo que simplesmente não existia no catálogo anterior. O analista de teste de intrusão formaliza o pentest como função contratável, em vez de item avulso dentro de um contrato genérico de segurança.
DevOps e DevSecOps aparecem separados, o que é uma decisão deliberada: reconhece que integrar segurança ao ciclo de entrega é uma disciplina própria, e não um adicional na descrição de outro cargo. Já o especialista em custos em nuvem é a admissão explícita de um problema que o setor privado descobriu antes — migrar para a nuvem sem alguém dedicado a controlar a fatura sai caro. O último perfil, ligado a práticas sustentáveis de infraestrutura, entra na conta de consumo energético de data center, tema que ganhou peso com a expansão de cargas de IA.
Por que isso importa além de Brasília
Vale entender o que a portaria é e o que ela não é. Não se trata de anúncio de concurso público: o catálogo de perfis rege principalmente a contratação de serviços por meio de empresas prestadoras, definindo que funções podem ser cobradas e como são remuneradas nos contratos. Na prática, quem sente o efeito direto são as fornecedoras de TI do governo e os profissionais alocados nesses contratos.
Ainda assim, o movimento tem peso simbólico e prático. O governo federal é um dos maiores contratantes de TI do país, e o catálogo dele acaba virando referência informal para estados, prefeituras e até para o setor privado na hora de descrever vagas. Reconhecer oficialmente que “infraestrutura de IA” é uma especialidade autônoma ajuda a padronizar exigências num mercado em que a mesma descrição de vaga pode significar cinco coisas diferentes.
Do lado da remuneração, a reportagem que trouxe o tema cita salários acima de R$ 30 mil para especialistas em IA no setor privado, com valores bem menores nos degraus iniciais do catálogo público — como R$ 2.391,38 para técnico júnior em manutenção e R$ 6.066,67 para analista júnior em automação. A distância entre esses números é justamente o desafio que o governo terá para preencher os novos perfis com gente qualificada.