O Google começou a reformular suas configurações de privacidade e, no processo, ligou um interruptor que muita gente vai querer desligar. A empresa passou a coletar fotos e vídeos de usuários em vários de seus serviços para, entre outras finalidades, treinar modelos de inteligência artificial. O detalhe que mais incomoda: a opção, chamada Save Media, vem ativada por padrão, ou seja, a coleta começa sem que o usuário precise concordar com nada.
A mudança não se limita ao buscador. De acordo com as novas regras, o recurso abrange um leque amplo de produtos: Busca, Maps, Shopping, Hotels, Flights, Translate, News e Play. O material reunido pode ser usado para “desenvolver e melhorar os produtos do Google, incluindo modelos de IA” — uma redação genérica o bastante para cobrir praticamente qualquer uso interno. O Google afirma estar comunicando a novidade por e-mail, com o assunto “Novas configurações de privacidade para serviços de pesquisa”, e diz que a implementação será global ao longo das próximas semanas.
Para o usuário que prefere não alimentar esses sistemas, o caminho de desativação existe, mas está escondido em menus pouco óbvios. É preciso abrir o Google Minha Atividade, ir até a aba de histórico dos serviços de pesquisa e desmarcar a opção Save Media. Lá também dá para desligar o histórico por completo ou apagar registros um a um. Um ponto de atenção: mesmo após a exclusão, segundo o Google, alguns dados podem permanecer armazenados por até quatro anos.

O movimento se encaixa em uma tendência maior das gigantes de tecnologia, que correm para abastecer seus modelos de IA com o máximo de dados possível — e, com frequência, recorrem ao próprio conteúdo dos usuários para isso. Para o público brasileiro, fica o recado prático: vale a pena reservar alguns minutos para revisar as configurações da conta Google e decidir, de forma consciente, o que você está disposto a compartilhar. Em um cenário em que privacidade virou moeda, conhecer (e usar) esses controles é cada vez mais importante.

Mais do que uma polêmica isolada, o episódio reforça por que a transparência sobre o uso de dados deveria ser a regra, e não a exceção. Configurações que afetam a privacidade de bilhões de pessoas, quando vêm ligadas por padrão, transferem para o usuário o ônus de “se proteger” de algo que sequer pediu. Enquanto a regulação não acompanha o ritmo da IA, o melhor que dá para fazer é ficar de olho nas letras miúdas.