Poucas coisas ilustram melhor o clima do mercado de buscas em 2026 do que esta cena: ao pesquisar no Google como fazer pesquisas “sem IA”, o próprio resumo gerado por inteligência artificial da plataforma passou a recomendar o DuckDuckGo como alternativa. O AI Overview chega a citar o No-AI Search do concorrente — um modo que remove imagens, sugestões e respostas geradas por IA — e ainda sugere configurações de navegador para reduzir esse tipo de experiência. Na prática, a IA do Google indicou como escapar dela mesma.
A ironia tem contexto. Depois do Google I/O 2026, a empresa acelerou a expansão do AI Mode e dos AI Overviews, transformando a tradicional lista de links azuis em respostas conversacionais que ocupam o topo da tela. Para muitos usuários, o resultado foi uma busca mais poluída e menos previsível, em que encontrar a fonte original virou tarefa secundária. Não por acaso, cresceu a procura por formas de voltar ao modelo antigo.
É nesse vácuo que o DuckDuckGo prospera. A empresa, conhecida pelo foco em privacidade, relatou alta média de 18,1% nas instalações do aplicativo logo após os anúncios de IA do Google, com picos que chegaram a 30% em alguns momentos — o crescimento foi especialmente forte no iPhone. Vale notar que o próprio DuckDuckGo também oferece ferramentas de IA, como o Search Assist e o Duck.ai, mas com uma diferença importante: o usuário consegue desligá-las facilmente ou optar por uma busca limpa e sem anúncios, algo que o Google ainda não entrega da mesma forma.
Para o leitor brasileiro, o episódio serve menos como uma recomendação de troca imediata e mais como um lembrete de que existem opções. A liderança do Google segue sólida e dificilmente será ameaçada no curto prazo, mas a reação dos usuários mostra uma demanda real por controle sobre como a informação é apresentada. Em um momento em que a IA invade cada canto dos produtos digitais, poder escolher quando não usá-la virou, ironicamente, um diferencial competitivo.
