Anúncios fraudulentos usando o nome do Desenrola Brasil, do Gov.br e de outros serviços federais rodaram no Google com o selo de anunciante verificado da própria plataforma. A constatação é de uma nota técnica do NetLab UFRJ, grupo de pesquisa da universidade federal carioca, que monitorou a Central de Transparência de Anúncios do Google entre 12 e 25 de agosto.

Os pesquisadores contaram 69 campanhas enganosas sobre serviços públicos: 50 exploravam o Desenrola, 17 o Sistema Valores a Receber do Banco Central e 2 a CNH do Brasil. O padrão é conhecido de quem já recebeu golpe por SMS — mensagens de urgência financeira do tipo “seu nome está na lista” ou “há dinheiro disponível no seu CPF”, decoradas com o logo do Gov.br, da Caixa, do Canal Gov e até o brasão da República. Por trás delas havia 44 anunciantes (23 empresas e 21 pessoas físicas) e 35 sites diferentes, nenhum no domínio oficial do governo. Pelo menos seis imitavam páginas federais para capturar dados pessoais, o clássico phishing.

O ponto mais sensível do estudo é que todos os anunciantes tinham passado pela verificação do Google, que deveria justamente filtrar quem se passa por outra pessoa ou instituição. Para a diretora do NetLab, Débora Salles, o caso mostra falta de diligência na moderação — e ela lembra que publicidade responde por mais de 73% da receita do Google. O relatório também critica a própria ferramenta de transparência: não é possível buscar por palavras dentro do texto dos anúncios, nem ver quanto foi gasto ou quantas pessoas foram atingidas. Metade dos anúncios do Desenrola sumiu da central durante o monitoramento, sem indicação de que tenha sido moderada.

O Google respondeu que tem regras claras para o Google Ads, usa IA de forma preventiva junto com revisores humanos e age assim que encontra violações. A empresa cita que, só no Brasil, bloqueou ou removeu 374 milhões de anúncios e suspendeu 1,3 milhão de contas em 2025. Os pesquisadores, porém, alertam que a opacidade do sistema é um risco nas eleições de 2026 e lembram que o STF passou a presumir, desde 2025, a responsabilidade das plataformas por conteúdo ilícito em anúncios pagos.

A defesa do lado do usuário continua simples: serviço federal fica em endereço gov.br, e renegociação de dívida ou consulta de valores a receber nunca começa por um link patrocinado. Na dúvida, digite o endereço oficial. E, se a senha de alguma conta importante tiver ido parar numa página falsa, troque-a imediatamente e ative a verificação em duas etapas — uma chave de segurança física é a forma mais resistente a phishing.
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