A Rede Globo retirou do ar uma chamada promocional produzida com inteligência artificial generativa depois de receber uma notificação extrajudicial. A peça, de pouco mais de dois minutos, divulgava a programação de filmes da emissora misturando seus apresentadores com astros de Hollywood recriados por IA. Segundo informações publicadas pela imprensa, o pedido partiu de um dos detentores dos direitos das produções retratadas, cuja identidade não foi confirmada.
O vídeo trazia cenas como Marcos Mion revelado por trás de uma das máscaras de Missão Impossível, celebridades internacionais entrando nos estúdios da emissora, personagens de animação e ajustes feitos por IA em produções da própria casa. Na prática, a peça tratou rosto de ator como material editável — e é exatamente aí que a coisa desanda juridicamente, porque imagem de pessoa e personagem licenciado não são recursos livres de uso só por terem sido reconstruídos por um modelo.
A reação do público seguiu a mesma linha. Nas redes sociais, muita gente lembrou que vários dos artistas “homenageados” participaram da greve de 2023 em Hollywood, cuja pauta central incluía justamente a proibição de manipular imagem e voz de atores por IA sem autorização. Usar essas mesmas figuras numa vinheta gerada por máquina, dois anos depois, foi lido menos como homenagem e mais como o oposto dela.
Não é a primeira vez que a emissora entra nessa discussão. Em agosto, ela já havia sido criticada por recorrer à tecnologia para criar uma cena de abraço entre Glória Menezes e Laura Cardoso, duas atrizes que morreram com poucos dias de diferença — trecho exibido no Mais Você que também não caiu bem pela artificialidade. O episódio de agora sobe o custo do experimento: além do desgaste com a audiência, entra risco jurídico, e o material continua circulando nas redes mesmo depois de ter sido tirado da grade. Para o mercado publicitário brasileiro, que vem testando IA generativa em campanha atrás de campanha, fica um limite bem concreto marcado no chão.

