Gregory Kurtzer, um dos fundadores do CentOS e o nome por trás do Rocky Linux, mostrou um projeto novo chamado Ginux. É um kernel cuja maior parte do código saiu de agentes de inteligência artificial, e o trabalho todo levou 11 dias. A linguagem escolhida foi Rust, e o alvo são processadores x86-64.
O Ginux é um kernel independente. Ele não reaproveita o código do Linux e faz o próprio gerenciamento de memória. Para executar programas feitos para Linux, Kurtzer incluiu uma camada que imita a interface binária do sistema, a ABI. Com ela, o Rocky Linux 10 chegou ao modo multiusuário do systemd, o estágio em que a máquina já sobe serviços e aceita login, ainda sem ambiente gráfico.
Como a IA entrou no processo
Kurtzer batizou o método de HDAE, sigla em inglês para engenharia agêntica dirigida por humanos. Na divisão de tarefas, a pessoa decide o desenho do sistema, as metas e os testes que o código precisa passar. Os agentes escrevem as funções e consertam o que quebra. Segundo ele, uma única sessão contínua no Codex, da OpenAI, rodando o modelo GPT-5.6 Sol, gerou perto de 139 mil linhas, somando código e testes.
O número impressiona, mas linha de código não mede qualidade. Chegar ao modo multiusuário prova que o básico funciona: processos, memória, sistema de arquivos e chamadas de sistema suficientes para o systemd não travar. Ainda faltam respostas sobre suporte a hardware real, desempenho e segurança. Um kernel que nenhum humano revisou linha por linha é exatamente o tipo de software que ninguém deveria colocar em servidor de produção tão cedo.
Quem é Kurtzer
O histórico do autor explica a atenção que o Ginux recebeu. O CentOS surgiu em 2004 como uma recompilação gratuita do Red Hat Enterprise Linux e virou padrão em servidores de empresas e universidades. Em 2020, a Red Hat mudou o foco do projeto para o CentOS Stream e antecipou o fim do CentOS Linux 8. Kurtzer reagiu criando o Rocky Linux, que ocupou o espaço deixado e hoje roda em muitos data centers, inclusive no Brasil.
O experimento também chega num momento em que a IA começa a encostar no desenvolvimento de sistemas operacionais. O próprio Linus Torvalds já usou uma ferramenta de IA para corrigir um gargalo antigo do kernel Linux. A diferença é de escala: Torvalds aplicou IA num ajuste pontual, enquanto Kurtzer deixou os agentes montarem um kernel inteiro sob supervisão.
Para quem administra servidores com Rocky Linux, nada muda agora. O Ginux é uma demonstração de método, e vale acompanhar mais como estudo de caso de programação com agentes do que como alternativa ao Linux. Kurtzer não apresentou data de versão estável nem planos comerciais, e o código foi pensado só para a arquitetura x86-64, o que deixa máquinas ARM de fora por enquanto.
