Os óculos inteligentes com câmera viraram caso de polícia na França. O Ministério Público de Paris abriu uma investigação sobre ao menos uma suspeita de assédio sexual cometida com o auxílio desse tipo de dispositivo, depois de receber várias denúncias. A informação foi divulgada pela agência Reuters nesta sexta-feira (18). A marca e o modelo dos óculos envolvidos não foram revelados.
O que motivou a apuração
O gatilho foram vídeos de mulheres filmadas na rua sem saber, gravados pela lente que fica embutida na haste dos óculos e depois publicados nas redes sociais, onde viralizaram e reacenderam o debate sobre privacidade. A promotoria informou que sua unidade de crimes cibernéticos passou as últimas semanas testando diferentes modelos de óculos com câmera para entender quais infrações podem ser cometidas com eles.
O problema não se limita à rua. A CNIL, autoridade francesa de proteção de dados, recebeu recentemente pelo menos dez reclamações sobre o uso do acessório em ambientes de trabalho, com câmeras e microfones captando colegas, conversas e informações sensíveis sem aviso. Diante disso, várias empresas procuraram o órgão para saber se podem simplesmente proibir os óculos no escritório.
A lei existe, aplicar é o problema
Gravar alguém sem autorização em espaço privado já é crime na França, com pena que chega a um ano de prisão somada a multa de 45 mil euros (cerca de R$ 265 mil). Ainda assim, a própria CNIL reconhece que fazer a regra valer é complicado: a velocidade com que os vídeos se espalham torna quase impossível conter a exposição depois que o conteúdo sai do aparelho.
Especialistas ouvidos pela Reuters criticam também as fabricantes, apontando que as grandes empresas de tecnologia fizeram pouco para impedir abusos. A diretora da organização feminista Hubertine Auclert, Ines Girard, resumiu a crítica dizendo que não faz sentido responder a uma tecnologia de vigilância pedindo que as pessoas vigiadas fiquem mais atentas.
Por que importa
A discussão é global e avança rápido. A Noruega estuda banir os óculos em espaços públicos, e no Brasil a ANPD já pediu explicações à Meta sobre os Ray-Ban Meta, líderes da categoria. O sinal luminoso que indica gravação, presente na maioria dos modelos, é pequeno e fácil de cobrir, e a chegada de versões com tela e assistente de IA só amplia o alcance do que o aparelho vê. O caso francês tende a servir de referência para reguladores de outros países, inclusive o brasileiro.
