Cerca de 700 supermercados franceses tiveram os sistemas de refrigeração sequestrados por invasores nos últimos dias. O resultado apareceu nas gôndolas: alimentos descongelados, estoques inteiros no lixo e, em alguns pontos, princípios de incêndio. A ANSSI, agência nacional de cibersegurança da França, confirmou que os alvos foram controladores da Danfoss e equipamentos das marcas Copeland e Dixell.
A lista de redes atingidas inclui praticamente todo o varejo alimentar do país: Intermarché, Carrefour, Coopérative U, E.Leclerc e Monoprix. Em lojas do Intermarché, os equipamentos ficaram seis horas operando no limite, e nada do que estava armazenado pôde ser aproveitado. Segundo a ANSSI, os criminosos mudaram as rotas de resfriamento e chegaram a subir a temperatura em até 50°C.
Como os alarmes foram enganados
O detalhe mais calculado do ataque está nos ciclos de degelo. Os invasores esticaram essas rotinas, que normalmente duram uma hora, para até oito horas. Durante o degelo, é esperado que a temperatura suba, então os alarmes demoraram a disparar. Quando a equipe das lojas percebeu, o estrago já estava feito.
O Ministério Público de Paris abriu investigação criminal pela unidade especializada em crimes digitais, e os ministérios da Economia e das Finanças acompanham o impacto na cadeia de abastecimento. Até agora, nenhum grupo reivindicou a ação nem pediu resgate, o que torna o motivo ainda desconhecido.
Falhas conhecidas, equipamentos abandonados
O problema não era segredo. Pesquisadores da Claroty publicaram meses atrás relatórios sobre dezenas de vulnerabilidades nesses controladores, e a CISA, agência de infraestrutura dos Estados Unidos, emitiu alertas sobre o mesmo tema. As falhas permitiam assumir o controle remoto dos aparelhos.
A Copeland admitiu, em nota, a vulnerabilidade em uma geração de controladores que já saiu de linha, e disse estar ajudando os clientes afetados a reduzir os riscos. A ANSSI e os fabricantes apontam o mesmo padrão: boa parte dos equipamentos invadidos tinha passado do fim da vida útil e não recebia mais correções de segurança. Em muitas lojas, o painel de controle estava exposto direto na internet, sem VPN.
Tiago Henriques, executivo da seguradora cibernética Coalition, resumiu o diagnóstico: equipamento industrial precisa da mesma proteção que os computadores do escritório. Na prática, ninguém tratava o controlador do freezer como um computador conectado.
Por que isso interessa ao Brasil
Controladores dessas marcas são comuns em refrigeração comercial no mundo todo, e o cenário francês, com aparelho antigo, sem atualização e acessível pela internet, não é exclusivo da Europa. Para quem administra loja, açougue ou câmara fria, a checagem é simples: descobrir se o painel aceita acesso de fora e se o fabricante ainda publica atualizações para aquele modelo. Se não publica, a troca deixa de ser luxo.
A recomendação oficial da ANSSI aos operadores é tirar os equipamentos da rede pública imediatamente e só religar o acesso remoto por conexões protegidas.
