
O anúncio da Sony de encerrar a fabricação de jogos em disco a partir de janeiro de 2028 deixou de ser apenas assunto de fórum de jogador e chegou às instituições brasileiras. A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) protocolou uma representação no Senacon, a Secretaria Nacional do Consumidor, pedindo que o órgão investigue a prática — o caso foi encaminhado à coordenação responsável por consultoria técnica e sanções administrativas. O Procon-SP também já havia se manifestado sobre a decisão da fabricante.
O centro da discussão é um incômodo antigo que a mídia física ajudava a disfarçar: quando você compra um jogo digital, você compra uma licença, não o produto. Enquanto o disco continuava existindo, essa distinção era quase filosófica; sem ele, ela vira risco concreto. Se a loja fecha, se o servidor de autenticação sai do ar ou se o título é retirado do catálogo, o comprador pode simplesmente perder acesso ao que pagou. É essa lacuna que o PL 3.612/2026, inspirado no movimento internacional Stop Killing Games e que conta com apoio da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), tenta endereçar ao propor regras para preservação de jogos e para o desligamento de servidores.

Há também o debate sobre preço, inevitável quando o assunto é console no Brasil. A avaliação apresentada pela parlamentar é a de que a carga tributária sobre o consumo é alta em todas as áreas, não apenas em games — mas que cortar imposto, isoladamente, não faria o PlayStation 5 ficar mais barato sem concorrência real no mercado. É um ponto que costuma passar batido nas discussões sobre tributação de eletrônicos: preço final também é função de quantos fabricantes disputam o mesmo consumidor.
Para quem joga, o efeito prático de curto prazo é zero — discos continuam sendo vendidos e lidos normalmente por enquanto. O que está em jogo é o médio prazo: se a compra 100% digital vier sem contrapartidas legais, o jogador brasileiro fica dependente da boa vontade das plataformas para manter no ar aquilo que já comprou. Independentemente do desfecho do projeto de lei, a movimentação coloca em pauta uma questão que a indústria vinha empurrando com a barriga há uma década.

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