A Denuvo, dona do sistema antipirataria mais odiado e mais usado do PC, decidiu partir para o ataque direto. A empresa austríaca entrou com uma ação na Corte Distrital do Norte da Califórnia contra o cracker conhecido como voices38, acusado de contornar a tecnologia Anti-Tamper em 26 jogos. É, até onde se sabe, a primeira vez que a companhia leva um cracker a um tribunal dos Estados Unidos. O processo foi protocolado na segunda-feira, 14 de setembro, e a petição foi obtida pelo site TorrentFreak.
Quem é o alvo e o que ele fez
Enquanto boa parte da pirataria recente de jogos com Denuvo passou a depender de contornos via hypervisor, que exigem desligar recursos de segurança do Windows, voices38 seguiu o caminho clássico: patches que atacam diretamente as checagens do DRM e não pedem nenhuma mudança no sistema. Isso tornou seus lançamentos populares, e o ritmo acelerou durante o ano. No começo de setembro, o cracker chegou a publicar cinco quebras de Denuvo em um único dia.
A lista apresentada no processo mistura títulos antigos, como FIFA 20 e PES 2020, com lançamentos recentes de peso: Resident Evil Requiem, Hogwarts Legacy, Black Myth: Wukong, Doom: The Dark Ages, Stellar Blade, Pragmata, 007 First Light, Mafia: The Old Country e Dead Space Remake estão entre eles. A relação já nasceu desatualizada. Depois de a Denuvo fechar a lista, voices38 ainda publicou patches para Persona 3 Reload e Star Wars Outlaws.

A jogada jurídica
Há um detalhe importante: a Denuvo não é dona dos direitos autorais de nenhum desses jogos, então não pode acusar o réu de pirataria no sentido tradicional, como fariam Capcom, Warner ou EA. A saída foi apoiar toda a ação na cláusula anticircunvenção da DMCA, a lei americana de direitos autorais, que proíbe burlar travas digitais e permite que qualquer parte prejudicada acione a Justiça. O argumento é simples: o negócio da Denuvo é vender proteção a editoras como EA, Ubisoft, Capcom e Sony, e cada crack corrói esse produto.

O problema óbvio é que ninguém sabe quem é voices38. A petição nomeia o réu como “um indivíduo ou entidade desconhecida”, acompanhado de dez réus não identificados. Mas a empresa fez lição de casa: o documento lista um ID do Discord, uma conta do Reddit e sete perfis da Steam que ela acredita pertencerem ao cracker. A lógica é que os jogos precisam ser comprados antes de serem quebrados, e compras na Steam deixam rastro de pagamento. Com o processo aberto, a Denuvo pode pedir ao juiz autorização para intimar Valve, Reddit e Discord.
Além de indenização, a empresa pede uma liminar que proíba voices38 de contornar o Anti-Tamper em qualquer jogo, incluindo os que ainda nem existem. Questionado no fórum CrackWatch, no Reddit, o cracker respondeu com uma frase só: está tudo bem, e tudo vai continuar como sempre.
Por que isso importa
O Denuvo é criticado por parte dos jogadores de PC pelo impacto no desempenho e pelo nível de acesso ao sistema que exige, mas segue sendo a escolha padrão das grandes editoras para segurar as vendas nas primeiras semanas. Mesmo que os pedidos de intimação não revelem quem é voices38, uma sentença à revelia com liminar facilitaria derrubar contas e links de download, e uma vitória serviria de aviso: a Denuvo pode, sim, processar crackers diretamente. Para quem joga no Brasil, onde os preços da Steam pesam no bolso, o caso reacende a discussão sobre até onde vai a proteção e o que ela custa em desempenho.
Onde comprar os jogos citados:
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