A Administração do Ciberespaço da China, órgão que regula a internet no país, abriu uma investigação formal contra a DeepSeek e a Moonshot AI, dona do Kimi. A apuração, revelada pelo site americano The Information, começou poucos dias depois de a Anthropic publicar um relatório acusando as duas startups de usar o Claude como professor involuntário dos seus próprios modelos.

O que a Anthropic encontrou
A técnica em questão é a destilação: em vez de treinar tudo do zero, um laboratório faz milhares de perguntas a um modelo mais avançado e usa as respostas para ensinar o seu. Segundo a Anthropic, DeepSeek, Moonshot e também a Xiaomi fizeram isso retransmitindo ao Claude conversas de usuários reais e aproveitando o que voltava como material de treino. Nas contas da empresa americana, a Moonshot passou 23 milhões de interações pelo Claude e a DeepSeek, 12,1 milhões.
O ponto mais grave é a origem desse material. De acordo com o relatório, boa parte das conversas vinha de serviços de roteamento de modelos, muito usados por desenvolvedores nos Estados Unidos e na Europa, e trazia nomes, e-mails e dados internos de empresas de centenas de pessoas, em mais de dez idiomas. A Anthropic diz que a prática provavelmente viola leis de privacidade e os próprios termos de uso dos laboratórios chineses. O mesmo documento já tinha ligado o uso indevido do Claude a planos militares envolvendo Taiwan.
Por que Pequim decidiu agir
A reação chinesa pode parecer surpreendente, já que as empresas investigadas são vitrines do setor de IA do país e receberam dinheiro público. Mas o caso mancha justamente essa imagem, e o timing é político: o presidente Xi Jinping tem encontro marcado na Casa Branca com Donald Trump, e a regulação de empresas de IA está na pauta. Mostrar que a China fiscaliza os próprios laboratórios reduz o espaço para os Estados Unidos endurecerem contra eles.
Não é a primeira vez que o assunto aparece. Em julho, Anthropic e OpenAI já tinham acusado empresas chinesas de copiar seus modelos e pedido ação do governo americano. A diferença agora é que a cobrança parte do outro lado.
Para quem usa assistentes de IA no Brasil, o episódio serve de alerta sobre intermediários: plataformas que prometem acesso barato a vários modelos ao mesmo tempo podem estar repassando suas conversas a terceiros. Antes de colar dados pessoais ou da empresa em um chatbot, vale conferir quem de fato processa o que você escreve.