O ChatGPT parou de aceitar um pedido que sempre esteve entre os mais populares do chatbot: “escreva isso no estilo de [nome do escritor]”. Nas últimas semanas, o assistente da OpenAI passou a recusar solicitações explícitas de cópia ou emulação do estilo de autores específicos, oferecendo em troca um texto apenas “inspirado” em características gerais — tom, ritmo, tipo de narrador — sem se comprometer a soar como a pessoa citada. A mudança foi identificada em testes independentes e se repete também em português, o que descarta a hipótese de ser um ajuste regional.
O detalhe mais revelador do novo comportamento é a distinção que o modelo faz entre autores vivos e mortos. Pedidos envolvendo escritores já falecidos, cujas obras em muitos casos estão em domínio público, continuam sendo atendidos com bastante liberdade. Já nomes de autores em atividade recebem a resposta alternativa. Essa fronteira não é literária, é jurídica — e diz muito sobre o que motivou a mudança.

A OpenAI não comentou oficialmente a alteração, e o contexto ajuda a explicar o silêncio. A empresa é ré em uma fila de ações movidas por escritores, editoras e grupos de titulares de direitos que contestam o uso de obras protegidas no treinamento de seus modelos. Nesses processos, a peça de acusação mais eficiente não é o dataset em si — que é difícil de auditar por fora — e sim a saída do modelo: um trecho gerado que reproduz com precisão o estilo de um autor específico funciona como indício de que a obra dele foi absorvida. Fechar essa porta na interface não apaga o que está no treinamento, mas reduz a produção de provas contra a própria empresa.
Para quem usa o ChatGPT como ferramenta de escrita no dia a dia, o efeito prático é irregular. Quem pedia “no estilo de” como atalho para definir um registro — mais seco, mais barroco, mais coloquial — vai precisar descrever o que quer em vez de citar um nome, o que dá mais trabalho e costuma render resultados melhores. Quem usava o recurso para produzir pastiches, fanfics ou paródias de autores contemporâneos perde uma função de fato. E há um efeito colateral incômodo: o modelo tende a errar para o lado da recusa, então menções perfeitamente legítimas a um escritor podem ser bloqueadas junto.
No fundo, essa é a segunda fase de um debate que já passou pela imagem. Ilustradores foram os primeiros a ver seus nomes virarem comando de prompt, e as plataformas de geração de imagem foram, uma a uma, restringindo o uso de nomes de artistas vivos. O texto seguiu o mesmo caminho, só com alguns anos de atraso — e a expectativa razoável é que voz e vídeo repitam o roteiro. Vale notar que “estilo”, em si, nunca foi protegido por direito autoral em nenhum lugar do mundo; o que está sendo negociado aqui, por vias práticas em vez de legais, é onde termina a influência e começa a substituição.