A Chainalysis, empresa americana que vende rastreamento de transações em blockchain para polícias, governos, bancos e corretoras, admitiu nesta sexta-feira (6) que o incidente de segurança iniciado em outubro foi mais grave do que parecia no começo. Segundo a companhia, os invasores chegaram a hashes de senha, identificadores de login e tokens de todos os usuários cadastrados na plataforma, além de nomes e e-mails.
Do vazamento de e-mails ao man-in-the-middle
A primeira fase, em outubro, parecia limitada. Com ferramentas automatizadas e apoio de inteligência artificial, os criminosos coletaram metadados como nomes e e-mails de clientes. Nas atualizações seguintes, a Chainalysis informou que a invasão evoluiu para um ataque man-in-the-middle, em que o invasor se coloca entre o usuário e o servidor e intercepta o tráfego. Foi nessa etapa que credenciais de contas corporativas e governamentais ficaram expostas.
Em comunicado, a empresa listou entre os dados acessados os IDs de usuário, nomes completos, e-mails e os cargos atribuídos a cada pessoa dentro da organização cliente. Ela classifica essas informações como não sensíveis. O risco maior está nos tokens ativos e nos hashes: com eles, um atacante pode tentar se passar por um investigador legítimo ou quebrar senhas fracas por força bruta.
Serviço fora do ar
A resposta foi desligar boa parte da plataforma. Ficaram indisponíveis a página de login, o KYT (sigla em inglês para “conheça sua transação”, usado por corretoras para vigiar movimentações em tempo real), a ferramenta que verifica se uma carteira tem ligação com golpes ou sanções e os painéis analíticos. Para voltar, cada cliente precisa informar à Chainalysis os IPs de onde vai acessar, que passam a integrar uma lista de permissões. Só depois disso o usuário pode trocar a senha e gerar novas chaves de API, etapa obrigatória antes de qualquer novo registro de transação.
A reativação é gradual. A empresa diz que as equipes trabalham em regime de plantão para reforçar os sistemas e validar os controles antes de liberar cada conta.
Por que o caso pesa
O estrago vem de quem usa a ferramenta. A Chainalysis é uma das fornecedoras mais usadas de análise on-chain por órgãos de investigação, e saber quem, dentro de cada agência ou corretora, tem acesso a esses dados é informação valiosa para grupos que lavam dinheiro com cripto. A empresa não divulgou quantos clientes foram afetados por país. Se você trabalha com compliance numa corretora que usa a plataforma, a troca de senha não basta: chaves de API antigas precisam ser revogadas, e qualquer integração automatizada vai parar até a liberação do IP.
O caso se soma a uma sequência ruim para o setor. Em outubro, a Ledger pediu a distribuidores asiáticos que recolhessem carteiras físicas das prateleiras depois de um problema de hardware, e a Binance teve prejuízo bilionário após funcionários instalarem malware escondido em supostos processos seletivos.
