Bill Gates decidiu colocar dinheiro em um alerta que vem repetindo há meses. O cofundador da Microsoft anunciou que sua fundação vai destinar US$ 1 bilhão — pouco mais de R$ 5 bilhões — a projetos de inteligência artificial voltados a quem hoje fica de fora da tecnologia. O compromisso foi apresentado no Goalkeepers, relatório anual da Fundação Gates publicado na segunda-feira (14).
O diagnóstico do documento é que a IA está sendo desenvolvida, antes de tudo, para quem pode pagar por ela: grandes empresas, instituições ricas e usuários de países desenvolvidos. Sem uma correção de rota, argumenta a fundação, as pessoas que mais ganhariam com diagnósticos melhores, aulas personalizadas ou previsão climática são justamente as que vão ficar sem acesso.

Para onde vai o dinheiro
O valor será distribuído em dois anos. As fatias maiores, de US$ 400 milhões cada, vão para saúde e educação: na primeira, um dos focos é aperfeiçoar uma ferramenta que revisa prontuários em busca de sintomas que passaram despercebidos; na segunda, criar um assistente que ajude professores a refazer planos de aula a partir dos conteúdos que os alunos menos entenderam. Outros US$ 100 milhões financiam um aplicativo com orientação em tempo real para agricultores, cobrindo pragas, adubação e clima.
Os últimos US$ 100 milhões atacam um problema menos visível: a maioria dos grandes modelos funciona bem em inglês e mandarim, mas tropeça em línguas faladas por populações pobres. A ideia é bancar sistemas treinados para esses idiomas e para os contextos locais.
Big techs no projeto
A fundação não vai agir sozinha. Google e Microsoft entram em programas para fortalecer línguas africanas pouco representadas nos modelos, a OpenAI reservou US$ 50 milhões para capacitar profissionais de clínicas de saúde em Ruanda, com possibilidade de levar a iniciativa a outros países, e a Anthropic já trabalha com a entidade em pesquisa de vacinas, entre outras frentes.
O anúncio dá sequência a um ensaio publicado por Gates em agosto, no qual ele descreveu a IA como uma tecnologia capaz tanto de nivelar oportunidades como nunca antes quanto de aprofundar injustiças, e previu um dos períodos mais turbulentos da história. Na mesma linha, ele acusou parte da indústria de minimizar os riscos por causa do volume de dinheiro envolvido. Para o Brasil, que tem uma língua bem atendida pelos modelos mas enormes desigualdades regionais em saúde e ensino, o debate sobre quem se beneficia da IA está longe de ser distante.
