A crise nos preços de memória, que vem encarecendo de smartphones a placas de vídeo, levou a Apple a um movimento incomum: a empresa pediu autorização ao governo dos Estados Unidos para comprar chips de memória RAM da CXMT (ChangXin Memory Technologies), uma das maiores fabricantes da China. O objetivo é simples — encontrar fontes adicionais de fornecimento em um momento em que o custo dos componentes disparou, pressionado pela demanda voraz por inteligência artificial e data centers.
O problema é que a negociação não depende só do dinheiro da Apple. A CXMT faz parte de uma lista de empresas restritas mantida por Washington, na qual foi incluída ainda na gestão Biden por ser considerada “associada às Forças Armadas da China”. Na prática, qualquer empresa americana que queira fechar negócio com uma entidade dessa lista precisa de uma licença do Departamento de Comércio. É justamente essa licença que a Apple tenta destravar, pressionando o governo de Donald Trump há cerca de um mês, com apoio de aliados dentro da Casa Branca.
A situação coloca a Apple em um equilíbrio delicado entre economia e política. De um lado, o CEO Tim Cook cultiva uma relação próxima com Trump e tem interesse claro em conter custos antes do próximo ciclo de produtos. De outro, parlamentares como o congressista John Moolenaar já vieram a público alertar que uma parceria desse tipo aumentaria a dependência dos EUA em relação à China em um setor estratégico — semicondutores — bem no momento em que o país tenta fazer o oposto e reduzir essa exposição.
Para o consumidor, a história ajuda a explicar por que os preços de eletrônicos andam tão instáveis. A memória virou um dos componentes mais disputados da indústria, e fabricantes do mundo todo correm atrás de garantir estoque. Se a Apple, com todo o seu poder de compra, está disposta a enfrentar o atrito político de negociar com a China, é um termômetro de como a escassez aperta até as maiores empresas de tecnologia do planeta — e de como a conta tende a chegar, mais cedo ou mais tarde, ao bolso de quem compra um iPhone ou um notebook novo.