Um episódio interno da Amazon virou aula sobre um efeito colateral pouco discutido da corrida pela inteligência artificial: o custo pode escapar do controle sem que ninguém perceba. Relatos de engenheiros da empresa apontam que um projeto para usar IA em uma tarefa aparentemente banal — relacionar informações de autores às listagens de produtos do e-commerce — consumiu cerca de US$ 1,8 milhão, estourando o orçamento previsto em impressionantes 860%.
O detalhe mais desconfortável não é o valor em si, mas o tempo de reação. Segundo o relato, a empresa levou cerca de cinco meses para identificar que o projeto estava queimando dinheiro muito acima do planejado. Engenheiros descreveram uma inversão perigosa de lógica: operações que antes eram “trivialmente baratas” passaram a ser “catastroficamente caras” quando delegadas a um modelo de linguagem rodando em escala.

A raiz do problema está no modelo de cobrança. As empresas de IA migraram de licenças fixas para o pagamento por token processado — ou seja, cada pedaço de texto que entra e sai do modelo tem preço. Em tarefas repetitivas e de alto volume, esse formato transforma pequenas ineficiências em contas gigantescas. Para piorar, a própria Amazon chegou a incentivar o uso intensivo dessas ferramentas por meio de rankings internos entre funcionários, prática que teria sido desativada. Reportagens sobre o setor já mencionaram empresas gastando na casa das centenas de milhões de dólares por mês com modelos de IA.
Para o mercado brasileiro, que ainda está no começo dessa adoção em larga escala, o recado é valioso e vem de graça. A pressão para “colocar IA em tudo” muitas vezes ignora a pergunta mais básica: essa automação sai mais barata do que o processo que ela substitui? O caso da Amazon mostra que, sem monitoramento de consumo e sem uma métrica clara de retorno, a resposta pode ser um sonoro “não” — descoberto tarde demais, depois que a fatura já chegou.
No fim, a lição é menos sobre a tecnologia e mais sobre gestão. IA generativa é uma ferramenta poderosa, mas tratá-la como se fosse gratuita é a receita para o tipo de susto que a Amazon acabou de levar. Controlar o gasto por token deixou de ser detalhe técnico e virou parte central de qualquer projeto sério de automação.