Um desenvolvedor que navegava pelo AliExpress percebeu um comportamento estranho no próprio fone Bluetooth: configurado para dar prioridade ao PC, o aparelho simplesmente se recusava a alternar para outro dispositivo enquanto o site estava aberto. Ao investigar o que segurava a conexão, ele encontrou algo mais interessante que um bug — o site emitia sons inaudíveis pela API WebAudio do navegador, através de dois scripts identificados como collina.js e fireyejs.js.
A técnica é conhecida como browser fingerprinting de áudio, e o objetivo não é escutar nada. O site pede ao navegador que processe um sinal sonoro e observa o resultado: as diferenças mínimas na forma como cada máquina executa esse processamento — somadas a dados de renderização, WebGL e configuração de hardware — funcionam como uma impressão digital daquele aparelho. Com ela, é possível reconhecer o mesmo visitante em acessos futuros mesmo que ele apague os cookies ou use janela anônima.
O detalhe que torna o caso ilustrativo é justamente o sintoma. Nenhum aviso, nenhuma permissão, nenhum indicador na tela: o que denunciou o mecanismo foi um fone que parou de se comportar como deveria. Rastreamento por fingerprinting é invisível por definição, e é exatamente por isso que ele se tornou o plano B da publicidade digital depois que navegadores começaram a apertar o cerco contra cookies de terceiros.
Para o consumidor brasileiro, o assunto tem peso extra: o AliExpress é um dos sites de compra internacional mais usados no país, e a LGPD exige base legal e transparência para tratamento de dados pessoais — categoria em que identificadores de dispositivo se encaixam quando permitem reconhecer uma pessoa. Não há, até aqui, manifestação da empresa; o Alibaba Group foi procurado e não respondeu. Quem quiser reduzir a exposição pode usar navegadores com proteção antifingerprinting ativada por padrão, como o Firefox em modo restrito ou o Brave, mas vale lembrar que nenhum deles bloqueia esse tipo de coleta por completo.
